(fragmento)

 

                  A próxima vez que eu morrer vai ser a última


       “Um dia levamos Charlote conosco para uma das reuniões secretas. O líder perguntou se a moça era de confiança. Mas acho que aprovou a presença dela porque a menina fizera sua minissaia de um guardanapo. E passou o tempo todo olhando descaradamente para as pernas dela enquanto nos explicava os planos para tomar o poder, não apenas no Brasil, mas também em países vizinhos.

      “E terminou assim a reunião, dirigindo-se primeiramente a mim: “você fica responsável por Buenos Aires. O Saulo por Montevidéu. O Fausto por Córdoba”. “E as cidades nacionais?”, perguntou Fausto. “É o outro grupo que cuida”, disse o chefe. Também dele desconhecíamos o nome. Era apenas “o chefe”. 

      “Foi nossa última reunião antes do dia da bomba. Morávamos como ratos num sótão, mas importantes cidades do mundo estavam em nossas mãos. Faltava apenas estourar a Revolução.

       “Não estourou a Revolução. Nem nossa primeira bomba. Quando estávamos chegando pertinho do aeroporto, na última curva, ultrapassou-nos na contramão “o chefe”. “Suspenso o serviço. Nova ordem. O Saulo desmonta a bomba. Você dá uma volta e depois vem buscar teu companheiro. A bomba desmontada pode ficar aí na capoeira, não tem importância”. 

       Estava quase na praça quando ouvi o estrondo. 

       “No jornal, no dia seguinte, fotos do Saulo despedaçado. “Talvez ele tenha se suicidado”, disse dona Aurora. “Me disseram que ele foi catar amoras e pisou numa bomba que uns terroristas iam usar para explodir o avião do ministro”.

        “Troquei de assunto. “Por que o seu nome é Aurora, dona Aurora?” Eu andava muito preocupado com nomes. Não sabia quem era o meu amigo, agora morto. “Minha mãe gostava muito das duas cantoras, mas como o brilho de uma era tanto que acabou por ofuscar o da outra, me chamou Aurora. 

        “E dona Aurora, para minha surpresa, saiu dançando pela sala: “Taí!/ Eu fiz tudo pra você gostar de mim/ ó meu bem não faz assim comigo não/ você tem, você tem/ que me dar seu coração". 

         “Dona Aurora, minha avó adorava esta música”. E continuei: “essa história de gostar de alguém/ já é mania que as pessoas têm/ se me ajudasse Nosso Senhor/ eu não pensaria mais no amor". “Carmen Miranda fez tudo o que podia para que a irmã dela tivesse sucesso. Não havia inveja ou disputa entre elas. Ao contrário, havia muito amor”.

         “O amor é muito complicado”, disse dona Aurora, que disfarçava sua viuvez e ria quando Fausto lhe dizia, brincando: “viúva bonita como a senhora é como lenha verde: demora um pouco, mas pega fogo”. 


         “Nesse dia, ela me disse, depois de interromper a dança: “o amor é grande como o mar”. E começou a chorar, assim de supetão. “O que houve, dona Aurora?” “O Saulo. Ele tinha um amor proibido. Me falava do Fausto todos os dias. E nesses últimos tempos deu em ficar mais triste do que de costume, embora disfarçasse bem, porque a Charlote começou a namorar com ele. E eu não podia e não devia dizer nada. E não disse. Nunca disse”. 

       "Não descanso enquanto não estourar minha primeira bomba. Mas todos têm me dito ao longo desses anos que foram descobertos outros modos de eliminar a pobreza. Quais, se ela aumenta em todo o Brasil?".

       Quatro Crescente, só fumando e fazendo pequenos muxoxos. "Houve, porém, um tempo em minha vida que eu também era muito pobre, comia pratos simples, vestia roupas simplórias, mas em compensação era responsável por Buenos Aires quando a Revolução estourasse".

        "Mês que vem pagarei a última prestação e daí farei novo crediário. Voltarei a Buenos Aires. Adoro aquela cidade que um dia ia ser minha".

          "Todos os meus colegas encontraram o mar e o amor. Eu, apenas o mar. Por ora. Mas sigo procurando. Tomara que dê tempo. Para Saulo, não deu. Todos desistiram da Revolução ou então escondem bem os seus sonhos.

         "Um dia desses, como acordo com o alarme do rádio, comecei meu dia assim: "nós somos as cantoras do rádio/ levamos a vida a cantar/ de noite embalamos teu sono/ de manhã nós vamos te acordar".

         "Escovei os dentes, lavei o rosto e antes de deixar o quarto ouvi versos ainda mais bonitos: "canto, pois sei que minha canção/ vai dissipar a tristeza/ que mora no teu coração".

        "Me deu grande saudade de dona Aurora, que tinha tantas coisas para contar e, ao contrário de mim, guardou tudo somente para ela. E me recomendou um dia que jamais contasse o que tinha acontecido entre ela e Saulo, no tempo em que ele ainda vacilava entre amar um homem ou uma mulher. Mas Saulo talvez tenha escolhido a morte. Será que ele nunca tinha visto o mar?

         "Mas por que você não disse uma única palavra durante todo esse tempo, Quarto Crescente?" "Porque ainda não cheguei a Lua Cheia. E só falarei quando me completar. Eu também tenho o que dizer. Agora, porém, preciso ficar quieto. Para te ouvir. Eu adoro te ouvir. Adoro também te ler. Mas como eu gostaria de que teus leitores pudessem te ouvir. Você fala quase melhor do que escreve".

          "Quarto Crescente, para me elogiar, você não precisa acabar comigo. Escritor que fala melhor do que escreve, deveria parar de escrever". "Eu disse quase. O quase, como um detalhe, às vezes é tudo. Goethe quase se suicidou, mas não se suicidou. Fez com que se suicidasse o seu personagem. E assim evitou o próprio suicídio. No lugar dele, morreu Werther. Agora entendi aquela sua blague do outro dia". "Ah, sim, eu reitero: a próxima vez que eu morrer vai ser a última. Já morri demais."

 

 

 

O escritor Deonísio da Silva tem dezenas de livros publicados, entre os quais os romances Teresa d'Ávila (premiado pela Biblioteca Nacional e transposto para o teatro), A Cidade dos Padres, Os Guerreiros do Campo, Orelhas de Aluguel e Avante, Soldados: Para Trás (Prêmio Casa de las Américas em júri presidido por José Saramago, publicado também em Cuba e em Portugal). Publicados também em alemão, inglês, sueco, espanhol, francês e italiano, seus contos foram igualmente premiados: pelo MEC e pela Fundação Catarinense de Cultura, entre outras. Doutor em Letras pela USP, é professor e vice-reitor da Pesquisa e Pós-graduação da Universidade Estácio de Sá. Escreve semanalmente na revista Caras (etimologia) no Observatório da Imprensa, em www.eptv.com e no jornal Primeira Página. Seus livros mais recentes são Os Segredos do Baú e A Língua Nossa de Cada Dia. Lançamento 2008: Goethe e Barrabás.

   

 

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