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Deonísio da Silva
A história
aconteceu há muitos anos, mas vale a pena contá-la.

Fui obrigado a
arbitrar duas notas radicalmente conflitantes numa redação.
Um dos examinadores deu zero e
escreveu ao lado: “O aluno deve ter colado de alguém, mas errou até
quando copiou. Exemplo: escreveu ‘abitar’ e ‘abita’ em vez de ‘habitar’
e ‘habita’. Além do mais, quem pode habitar na corda de um navio?”.
O outro professor deu dez,
acompanhado do seguinte comentário: “Este aluno deveria ser o professor
do professor que lhe deu este zero!”.
Era evidente, ao primeiro
olhar: quem atribuíra zero ao aluno, desconhecia o verbo “abitar” e o
substantivo “abita”. Com muitas provas para ler, leu apressadamente
aquela, viu “abitar” e “abita”, não entendeu o que o aluno tinha
escrito, imaginou que ele copiara o conteúdo, transcrevendo a cópia com
erros, e tascou o zero para resolver o problema.
Não nego que me encantam os detalhes,
essenciais para um romancista e para todos os que gostam de entender
direito as coisas, que têm paixão pelo conhecimento.
A verdade está nos detalhes. E lá fui
eu à cata do detalhe. Por que “abitar” e “abita” em vez de “habitar” e
“habita”?
O aluno fizera uma redação muito bem
escrita. Escolhera um tema – um naufrágio – e não saíra dele. O texto
estava bem construído. Os três momentos decisivos da narração –
abertura, tramas do enredo, fechamento - estavam bem estruturados e
interligados. O marinheiro não soltara toda a corda. O navio não tinha
ancorado. Todos dormiram e à noite um vendaval jogou a embarcação contra
um rochedo, matando a muitos. Léxico e sintaxe eram perfeitos. Nenhum
erro de ortografia, nenhum erro de concordância, os célebres alçapões.
Seu pecado: sabia mais do que muitos professores e, para seu azar, sabia
mais do que aquele que o reprovara.
Teve a sorte de ter seu texto examinado
também por outro tipo de professor que, lendo aquilo de cabo a rabo,
achou tudo muito bonito, mas foi ao dicionário – PAI DOS BURROS, NÃO;
MÃE DOS SÁBIOS – e viu que a palavra ‘abita’ era assim definida:
“Construção Naval. Peça, hoje raramente usada, que consiste em uma
coluna de madeira ou de ferro, fortemente presa no convés, e em torno da
qual se dão voltas à amarra depois de lançada a âncora”.
Faltava abitar. Ainda que não dispusesse de
um dicionário de primeira linha, foi ao Aurélio de novo, o mais
consultado e o mais vendido, e encontrou lá: “Abitar: Marinha antiga.
Prender (a amarra), com voltas, na abita”.
A peça chamada abita veio do francês bitte,
que a trouxe do escandinavo biti, como até os vikings a chamavam.
Ainda no francês, bitte virou bitter, isto é, soltar toda
a corda, até que a âncora chegasse ao fundo.
Enquanto faziam isso, os marinheiros tomavam uma bebida
amarga, muito apreciada por eles, caindo numa biture, bebedeira,
que no francês antigo se escrevia boiture, derivado de boîte,
caixa, lata, frasco, redução do latim bibita, bebida.
Assim, o francês bitter virou o
inglês bitter, bebida digestiva, alcoólica, feita com ervas e
raízes amargas, estimulante do apetite e também um bom digestivo.
Foi em tal contexto que a expressão “até o mais amargo
fim” mudou de significado.
Um concurso pode ser vencido ou perdido por
detalhes. O aluno encontrou dois professores, ambos mais ignorantes do
que ele, mas deu sorte de um deles não ser arrogante. Foi este, e não
eu, quem o salvou da patada de um burro arrogante. Eu apenas escolhi, no
desempate, o lado certo.
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