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Deonísio da Silva


          
Pedro de Rates Henequim nasceu em Lisboa, em 1680. Era filho ilegítimo de um cônsul holandês com uma moça portuguesa muito pobre. Viveu vários anos no Brasil e voltou para Portugal em 1722, tendo sido executado em auto-de-fé, em sua cidade natal, em 1744. 
             Nosso herege defendia idéias no mínimo curiosas e algumas delas muito divertidas. Ele levou a sério os conceitos que davam a América e especialmente o Brasil como lugares paradisíacos. Aqui era a outra Terra Prometida. Já corria mel, que os índios extraíam de favos na floresta, e só não corria leite porque os portugueses não tinham ainda trazido vacas, ovelhas ou cabras.
               Para Henequim, Deus tinha criado no Brasil o Éden, ainda que, segundo o texto sagrado, o Paraíso fosse rodeado de rios e não de mares. Ora, mas os portugueses não confundiram a Baía da Guanabara com um grande rio e não lhe deram o nome de Rio de Janeiro? Coligiu muitas provas de que aqui tinha sido o Paraíso Terrestre, nenhuma mais curiosa do que a seguinte: tão logo desembarcaram no Brasil, os primeiros navegadores ainda puderam ver os últimos rastros de Adão na praia, quando, desarmado, foi expulso pelas hostes do arcanjo São Miguel com sua espada de fogo. 
              Convicto dessa certeza, passou a elaborar suas teses e desdobrá-las em outras complexas afirmações. O fruto proibido tinha sido a banana. Deus criara o mundo em língua portuguesa, o idioma oficial do céu. Assim, não dissera ''fiat lux'', que depois seria simples marca de fósforo, mas o elegante ''faça-se a luz'', depois traduzido para o latim! 
              Bem antes de Freud, intuiu que o pecado original, sempre ligado à nudez e ao sexo, tinha outros símbolos fálicos além da serpente. Nem figos nem maçãs, como quiseram os renascentistas. Havia uma banana na História da Salvação. Para cometer o primeiro pecado, Eva não descascou o abacaxi, mas a banana. 
              Inspirado em pinturas medievais, dizia que Adão e Eva não tinham umbigo, pois o primeiro homem tinha sido feito do barro; e a primeira mulher, da costela dele. Por isso Deus não tinha cortado o cordão umbilical de nenhum dos dois!
            Bom em português, para provar que o homem foi criado por mais de uma entidade, Henequim serviu-se do texto bíblico que diz: ''Façamos o homem à nossa imagem e semelhança''. Escreveu nosso herege: ''Se é 'façamos', é mais do que um''. Ele não aceitava o plural majestático, usado hoje até pelo papa. 
            Um vizinho, com vocação de delator, fez a denúncia à Inquisição. Cristão fervoroso, Henequim não esperou ser preso. Correu solícito aos tribunais, certo de que iria sair de lá absolvido e louvado. Ofereceu-se para escrever seus depoimentos porque temia não ser bem entendido. Não lhe foi permitido. 
             Assim, os autos que hoje lemos são reflexos de suas idéias. Escrivães disseram que ele pensava desse modo. Jamais saberemos ao certo. A História é feita assim também: outros atribuem a terceiros o que eles não disseram ou não fizeram. Às vezes, são os mesmos que disseram e fizeram o que depois atribuíram àqueles a quem maltrataram e às vezes assassinaram, utilizando para isso o braço armado do Estado. 
             Pedro de Rates Henequim, o nosso Lutero, foi, no máximo, um teólogo doido, jamais um inimigo da Igreja, do Estado ou do Povo.


 

02. Deus criou o mundo em Português! Deonísio da Silva. Hiperlinks das ilustrações: Albert Eckhout: Abacaxi e Mamão. Oléo sobre tela, 90x90.  Mulher Tupinambá. Óleo sobre tela, 265x159cm. Homem Tapuia. Óleo sobre tela, 266x159cm. Fonte. Museu virtual do Instituto Ricardo Brennand. Clique nas ilustrações para ter acesso à página original da pesquisa. 

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O escritor Deonísio da Silva tem dezenas de livros publicados, entre os quais os romances Teresa d'Ávila (premiado pela Biblioteca Nacional e transposto para o teatro), A Cidade dos Padres, Os Guerreiros do Campo, Orelhas de Aluguel e Avante, Soldados: Para Trás (Prêmio Casa de las Américas em júri presidido por José Saramago, publicado também em Cuba e em Portugal). Publicados também em alemão, inglês, sueco, espanhol, francês e italiano, seus contos foram igualmente premiados: pelo MEC e pela Fundação Catarinense de Cultura, entre outras. Doutor em Letras pela USP, é professor e vice-reitor da Pesquisa e Pós-graduação da Universidade Estácio de Sá. Escreve semanalmente na revista Caras (etimologia) no Observatório da Imprensa, em www.eptv.com e no jornal Primeira Página. Seus livros mais recentes são Os Segredos do Baú e A Língua Nossa de Cada Dia. Em fevereiro de 2008 lançará novo romance: Goethe e Barrabás.

 

 

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