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Os segredos do baú e outros contos

"Caro Deonísio da Silva:
Você conseguiu uma linguagem próxima da música da ingenuidade, quase expatriado do azedume ideológico. É que, as lições da infância católica, normativa, o narrador as obteve nos alvores da vida e, adormecidas no espírito, viraram nostalgia, ao invés de regras de comportamento.
Colho, no leito das narrativas, pepitas preciosas do linguajar interiorano, que ainda hoje identifico nos rincões de Minas. Enquanto isso, você combina toda aquela herança com os dizeres dos antepassados italianos, que rumaram, um dia, para Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná. Você explora reminiscências. O Vovô e a Professora Edite encantam. As palavras finais do primeiro conto registram uma lição agradável sobre a leitura. A leitura: “Ler para ver e ouvir melhor. Ler para sentir gostos perdidos”. (p.34).
No mais, você refaz a criação do homem e relê jocosamente a estória do Chapeuzinho Vermelho, com incrível inventividade. Parabéns. Grato, receba o abraço do amigo
Fábio Lucas.”

 

Assista à entrevista concedida por Deonísio da Silva à Editora Peirópolis.

Dê dois cliques na seta da área de exibição.

 

 

 

 

          

             Inicio aqui no Porto Deonísio uma coluna de outro perfil: um almanaque em doses homeopáticas. 
            Almanaque – do árabe almanakh, lugar onde os nômades descansam com seus camelos – deixou de designar a boa prosa dos viajantes que trocavam informações sobre os caminhos, o clima, as safras, feitos de personagens famosos etc e veio denominar livros despretensiosos, que vendem bem em todos os países. Não há uma única edição de almanaque encalhada no mundo!
            Há até uma “cultura de almanaque”, tachada de banal pelos pernósticos, que costumam detestar tudo o que o público estima. 
            Ao contrário, os almanaques nos dão pistas de temas muito pertinentes, às vezes escondidos atrás de informações aparentemente sem importância.
            Exemplo: diz-se que a maior palavra da língua portuguesa é anticonstitucionalissimamente. Não é. 
            A maior palavra da língua portuguesa é pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico. Designa uma doença rara, causada pela aspiração de cinzas vulcânicas. 
           Conquanto prosador ou talvez por isso mesmo, admiro mais o que não sei fazer e o que fazem, sempre magníficos, poetas antigos, como Castro Alves e Cecília Meireles, ou recentes, como Geir Campos, Neide Archanjo e Alberto da Cunha Melo. Por isso, deixo como pórtico estes de outro poeta de minha especial predileção: Affonso Romano de Sant´Anna. Seu nome já vem assim, empacotadinho, pronto pra presente, humildemente inclinado nas dobradas consoantes de Affonso e de Sant´Anna, como se nos saudasse mais uma vez no dobre deste poema, Pedes Explicação, que acho belíssimo: “Pedes explicações, que não sei dar,/ sobre meu jeito de amar./ Soubesse das razões por que te amo/ deste modo/ poderia também me apaziguar./ Sou assim:um gato na poltrona/ aos teus pés/ou um tigre que, faminto/ carinhosamente/ - vem te devorar”.

          Espero que o projeto não chateie os visitantes.  Setembro/2006

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